A Arte como ferramenta terapêutica: clínica para além da palavra

O limite da palavra e a sabedoria do corpo

É inegável a relevância da fala na psicoterapia. Não à toa, desde os primórdios da psicanálise de Sigmund Freud (primeiro contexto em que a “terapia” como conhecemos hoje surge), existe a lógica da cura pela fala. Minha prática clínica, entretanto, referenciada em saberes que frequentemente desafiam a racionalidade acadêmica da própria Psicologia como campo, aponta para a equivalente relevância de outras maneiras de expressão no contexto clínico. Muitas são as angústias, afetos e sensações que escapam a palavra falada e, curiosamente, encontram caminho no desenho, na literatura, na pintura, na dança, na música e em demais formas de arte. É no que a boca não conta – ou até conta, mas com intelectualizações excessivas – que a Arte surge como preciosa aliada dos processos terapêuticos tradicionais via fala. Alargamos os limites da comunicação verbal ao brincar com gestos, materiais, ritmos e até mesmo com a própria palavra – só que agora mais poética, aquela despreocupada em contar histórias que sigam necessariamente uma lógica qualquer.

A inclusão das artes em contextos psicoterapêuticos têm base histórica sólida, principalmente no Brasil. Nise da Silveira, psiquiatra junguiana e pioneira nesta forma de intervenção, a partir de 1946 demonstrou como o fazer artístico favorece o tratamento de pacientes psiquiátricos e enfatizou como, diante das obras produzidas, o papel da psicóloga não é julgar a estética, mas sim acolher o símbolo ali manifestado. A psicanálise de Donald Winnicott, por outro lado, enfatiza o quanto a arte e o brincar podem promover o resgate da capacidade de agência do indivíduo sobre sua própria história.

O reconhecimento e estudo das limitações verbais em contextos de sofrimento não é, tampouco, novidade. Segundo o psiquiatra Bessel van der Kolk, em O corpo guarda as marcas (2014), vivências de profundo estresse ou trauma frequentemente desativam a área de Broca (responsável pela fala), fazendo com que as emoções fiquem como que presas no corpo e inacessíveis à narrativa verbal lógica. É aí que as artes podem entrar como ferramenta terapêutica de acesso à experiência pessoal. Incluindo mas também extrapolando contextos de extrema dor, minha experiência clínica demonstra que mesmo pessoas sem prejuízos diretos na fala podem se beneficiar da expressão artística para alcançar a nomeação de sentimentos até então encobertos.

Este brevíssimo apanhado de referências da arte como ferramenta terapêutica certamente não têm a intenção de esgotar o tema – muito pelo contrário, já que poderíamos ficar uma vida inteira aprofundando na questão – mas sim de oferecer um primeiro passo à você que lê estas palavras na direção da compreensão da relevância clínica de intervenções artísticas no consultório. A presença do trabalho corporal e artístico em meu ofício como psicóloga clínica, bem como dos caminhos mais tradicionais via fala, é herança do que aprendi nas instituições comunitárias por onde passei antes de me firmar nos atendimentos individuais. Nesse sentido, no meu caso se trata de um saber que nasce do contato com pessoas que, em sua grande diversidade cultural e social, trazem nas suas singularidades uma jóia rara – a possibilidade constante de se dizerem para além do que já está dito.